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Da Paz (Texto Integral)
23/03/1986 11h42

Tem gente que não dá valor à amizade e não considera quem, em alguma época de sua vida, lhe tenha sido de alguma utilidade. Para alguns, amigos são coisas descartáveis ou sem valor, que se trocam por outros na medida em que deixam de ser úteis. Eu não. Talvez por isso mesmo eu tenha um variedade muito grande de amigos, muitos deles inimigos entre sí, pois amigo para mim é quem me considera pelo que eu sou como criatura humana e não pela minha atividade profissional. Vivendo numa profissão propícia à confusão entre sinceridade e interesses amadureci o suficiente para diferenciar uma coisa da outra. Também tenho - e quem não os tem ? - inimigos, em grande parte gratuitos e aos quais - já que não tenho índole para o ódio - dedico a mais santa indiferença. Mas os amigos existem e posso dizer - com certo orgulho - em todas as partes. Minha recíproca à amizade tem sido, sempre, a lealdade e a sinceridade. Amigo tem a obrigação de ser franco, justo, aberto. Amigo tem o dever de ser leal. Quem trai um amigo comete uma indignidade irreparável e é preferível, sempre, o sincero inimigo ao falso amigo. Agora mesmo tomo conhecimento da presença, na Suiça, de uma cantora cujo potencial artístico, o Brasil não soube valorizar devidamente: Maria da Paz. De incrível talento como cantora e compositora Maria da Paz - após dois LPs bem produzidos mas mal divulgados pela Copacabana, e cantar bastante pelos bares da vida - resolveu buscar na Europa o sucesso que lhe faltou no Brasil. " Pois é - diz-me ela - já não estou mais na "terrinha". Tentei outras terras e por fim, estou na Suiça onde tenho realizado o trabalho que tentei em vão no Brasil. Estou muito bem. Os shows são muitos, a aceitação do público até emociona. Vou ficar aqui o tempo que for preciso. Não penso em voltar tão cedo. Quero plantar onde a terra é fértil e os frutos doces. Para mostrar que não está blefando (e nem precisaria, pois é uma artista e uma criatura humana muito séria) Maria da Paz encaminha-me recortes de publicações suiças onde seu nome é apresentação de destaque. É aquela velha história de santo da casa não fazer milagre... Talvez quando ela voltar (se voltar) encontre portas mais abertas e ouvidos mais sensíveis e um trabalho profissionalmente sério. Quem é capaz de agradar a um público musicalmente tão evoluido como o suiço só não faz sucesso no seu próprio país porque, infelizmente, a máquina promocional é manipulada tendo em vista, apenas, a comercialização fácil. O talento, quando é demais, perturba, incomoda, agride e tira a paz de quem vive em grandeza e pensa pequeno.
(Texto Integral)

Autor: Jarbas Cunha

Fonte: Diário de Ribeirão Preto/SP

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